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02/06/2005 15:43
Quando se estuda inglês, nós brasileiros ficamos perdidos no mar dos falsos cognatos. Calma, não são uns amigos sacanas, nem falsificadores de bebês.

São palavras aparentemente iguais na grafia das duas línguas, mas cujo significado é completamente diferente. Eles são trapaceadores, enfim, pegam a gente de calças curtas.

Hoje minha professora de inglês explicou à classe alguns desses diversos pestinhas. Um brasileiro ao ler comprehensive vai logo pensando que quer dizer compreensível mas não é. Compreensível é understanding... comprehensive quer dizer amplo, abrangente. Então aquele livrão, calhamaço duro de roer, que alguém chamou de “a comprehensive book”, deixando-nos humilhados de ignorância, é somente abrangente, ufa.

Compromise, que dá a maior pista de ser compromisso, não passa de acordo, acerto. Ou seja, melhor não dizer que se tem“compromise com o namorado... No caso, é commitment.
Em tempo: cognato quer dizer palavra que vem de uma mesma raiz que outra.

Quando se tem acesso ao conhecimento, ou se nasceu com o passarinho da curiosidade, é mais fácil ir improvisando. Com execeção dos casos acima, claro... Fora isso, o inglês é como um endereço com vários caminhos para chegar. Ou a gente escolhe o caminho mais longo, ou corta pelas transversais. Uma hora chega, né? Mesmo que fique parado no boteco esperando melhorar o trânsito!

Falando com as mãos
Ao se falar inglês, é muito importante dar a impressão de domínio da língua, mesmo que isso não seja verdade, e isso você não consegue abanando as mãos e fazendo gestos descritivos compulsivos ao mesmo tempo em que se gagueja. Melhor só gaguejar! Muletas como essas não contribuem para o aumento do vocabulário.

Acho que um bom passo é tentar segurar esse lado italiano, restringir os gestos e falar pausadamente, encarando o interlocutor e fazendo de conta que está pensando, nem que tenha que dizer um monte de well, I guess, I mean, anyway. E decorar frases-chave mais simples. É muito chato ver uma pessoa se debatendo ao nosso lado.

Isso é o que eu acho e pratico, mas para quem não se preocupa com conhecimento e só quer se comunicar existe o tal do “Globish”. Uma matéria recente da Veja (acho que 2 ou 3 edições atrás) comentava o nascimento dessa espécie de nova língua no mundo, um inglês global, com o qual seria possível se comunicar sabendo cerca de 2 mil palavras básicas e, é claro, usando-se muitos gestos para compensaras falhas! Com algumas palavras básicas a gente pode, por exemplo, se referir a cunhado em inglês, como o irmão da minha mulher, e por aí vai.

Pode ser interessante para executivos estressadinhos da globalização e viajantes de miolo mole, mas para mim, nada feito. No deal. Gostoso é afundar no vocabulário e brincar com as origens dos vocábulos, coincidências da língua, etc.

Traduções literais inglês-português, por exemplo, são uma forma brincalhona de se divertir na hora de aprender, ao estilo Millôr (a vaca foi pro brejo=the cow went to the swamp).

Ou “between” (entre) para substituir o “entre” do verbo entrar. Brasileiros são muito engraçadinhos. E registro a “versão” que fizemos hoje para o nosso ditado brazuca “não cheira nem fede”: “That man doesn´t smell nor stinks.” É claro que em inglês existe uma outra forma de dizer a mesma coisa, mas ninguém se lembrou na hora. Bom, cada um se diverte como pode, e já que curto brincar de semântica na própria língua e sou uma fã confessa de dicionário etimológico, acho “cruzar” as duas línguas ainda mais interessante...

Um pouco de cultura para gentios
Os gramáticos dizem que os brasileiros têm algumas vantagens no aprendizado do inglês. A quantidade de fonemas que temos, por exemplo, facilita a pronúncia de muitos sons em inglês. Mas a principal vantagem é a origem comum latina de ambas as línguas.

Quem não se lembra das aulinhas de história e das conquistas do Império Romano? Anexa, Júlio César! Pois é, a então chamada “Britannia”, região da Inglaterra de hoje, estava lá bem quietinha com sua cultura celta-britã mas passou a ser um território invadido pelo exército romano e anexado a ele em 54 AC. Ou seja, durante três séculos os povos dali assimilaram a nova cultura e a linguagem dos invasores, que era, claro, nosso querido latim.

Foi o início do processo de nascimento da língua inglesa, que demorou séculos e só se esboçou como é agora depois de 1500, ou seja, na época do descobrimento do Brasil. Antes era uma confusão geral de dialetos, com o latim presente na gênese.

Mas o que quero destacar disso é que o vocabulário de origem greco-latina introduzido na Inglaterra foi aquele ligado aos chamados “conceitos abstratos”, por exemplo, sentimentos, pensamentos. Até então a linguagem anglo-saxônica era basicamente funcional, usada para descrever fatos concretos. Andar, comer, entrar, sair...

Bom, a história é comprida, mas depois disso tem os alemães, os franceses (normandos...) e o inglês foi se formando como é hoje. Mas os historiadores afirmam que esse vocabulário inglês comum, falado inclusive pelas pessoas mais simples, mas não restrito a elas, ainda está baseado no anglo-saxão de antes das conquistas!

E hoje, os nativos de língua inglesa bem-educados e intelectuais se destacam por adotar palavras surgidas dos conquistadores, como romanos e franceses (os últimos dominaram a região por mais 300 anos). E são justamente essas palavras que os brasileiros mais têm facilidade de reconhecer. Logo somos muito chiques.

Por outro lado, temos dificuldade de memorizar aquelas do dia-a-dia, o tatibitati dos ingleses, americanos... A tortura dos up, down, out, in, que vem embutida nos phrasal verbs. Alguém tem uma pílula para aprender todas as possibilidades que eles inventaram? Bom, não se pode ser bom em tudo, né?

Agora tenho sérios planos de exterminar esses malditos falsos cognatos. Sei quase todos, mas sempre tem um pegando no meu pé. E para terminar deixo esta pegadinha com vocês: She agonized for several days because of the prejudice. Não é Ela agonizou por vários dias por causa da prejuízo., mas Ela preocupou-se intensamente por vários dias devido ao preconceito.

enviada por Penélope






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